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Transtorno do Espectro Autismo em debate no Câmpus Urupema PDF Imprimir E-mail


“Eu não quero estudar, mas eu não quero que você vá presa porque eu te amo”. A frase foi dita por Davi, de 13 anos, filho de Maristela Fátima de Souza, aluna do Proeja do Câmpus Urupema. A mãe contou um pouco do que enfrenta com o filho perante a plateia composta por colegas de curso, outros alunos do câmpus, servidores e membros da comunidade de Urupema que estiveram na última segunda-feira (23) na sala multiuso da instituição. Em pauta, o Transtorno do Espectro Autismo, tema apresentado pela graduanda em psicologia e membro do Núcleo de Estudos sobre Deficiência da
Universidade Federal de Santa Catarina.





Helena veio a convite da psicóloga do câmpus, Karla Garcia Luiz, para apresentar à comunidade acadêmica e externa seu conhecimento sobre o autismo, condição que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) atinge 1% da população. No Brasil, há cerca de 600 mil pessoas diagnosticadas com algum grau de autismo, que pode variar do leve ao severo.

A palestrante, que há mais de um ano estuda o assunto, apresentou um pouco do histórico de estudos na área até os conceitos mais atuais. Segundo ela, Eugen Bleuer cunhou o termo que vem do grego “eu mesmo”. No início, era tratado como um sintoma da esquizofrenia. Por definição, autismo é conjunto de transtornos do desenvolvimento, que apresentam déficit socio-comunicativos, interesses restritos e comportamentos estereotipados.



Segundo Helena, os autistas tem um processamento sensorial diferente das demais pessoas, e reagem a estímulos de maneira peculiar. ‘’Muitas crianças e adultos com autismo em ambientes de muito estímulo, muita informação visual ou sonora tendem a se fechar, a tapar os ouvidos e fechar os olhos, pois não conseguem processar tanta informação’’, exemplifica.

Outra característica marcante é o interesse restrito. Porém, nas poucas coisas que se interessam, demonstram um nível de especialidade muito grande. “Isso acaba prejudicando a sociabilidade, pois eles tendem a falar apenas sobre aquele assunto que dominam. São poucos, um ou dois ao mesmo tempo, e podem mudar ao longo da vida. Além disso, acaba criando dificuldades para acesso ao mercado de trabalho formal, que exige cada vez mais um profissional generalista.”, completa Helena, reforçando que já há empresas atentas a esse nível de especialidade e contratando autistas para funções que exigem foco quase exclusivo em determinado assunto.

“Vi o perfil do meu filho ali”

As características apresentadas por Helena na palestra chamaram a atenção de Maristela para a o filho Davi. Ela conta que desde pequeno ele frequenta especialistas para que pudesse receber o diagnóstico e saber a melhor forma de tratar o filho. Porém, a origem humilde e os poucos recursos encontrados em Urupema dificultaram a situação. “Meu marido é analfabeto, eu to terminando o segundo ano (fundamental), então não entendíamos essas coisas”, afirma.



A escola acabou sendo o lugar onde Davi encontrava os maiores problemas. A mãe conta que desde pequeno ele não queria ir, que recebia apelidos, inclusive dos professores, e agressões por parte dos colegas por sua condição que era diferente dos demais. “Ele só se interessa por cavalos e coisas de sítio (interesse restrito, citado pela palestrante). Ele não se adapta à escola, pois lá os meninos gostam de futebol e de festa e ele, não. Ele só gosta de sítio, ele não gosta de onde tenha muita gente”.

Helena conta que o diagnóstico evoluiu com o passar dos anos. Contudo, ela alerta que é um diagnóstico comportamental, por isso deve ser feito por equipe multiprofissional e não apenas em consultas médicas. “ A intervenção precoce é fundamental para o desenvolvimento da criança. Ainda, o autismo é enquadrado como necessidade específica, tendo a obrigatoriedade de acesso aos direitos como outras mais conhecidas, como física, visual ou auditiva”, complementa.

Tanto os direitos, como a intervenção precoce são as duas maiores preocupações de Maristela. Segundo a mãe, na última consulta realizada no município o médico já havia acenado nessa direção, do diagnóstico de autismo. “Ainda com tudo o que ela falou hoje, o perfil dele está bem encaixado nesse diagnóstico. Eu não tive essa ajuda, esse conhecimento antes, por isso me preocupa se ele já não está no último grau, o que pode isolar ele ainda mais”, conta.

Além disso, é garantido por lei (12.764/2012) a presença do segundo professor em casos como o de Davi. Segundo a mãe, o município já recebeu ofício de uma psicopedagoga expondo a necessidade de contratação do profissional para auxiliar a criança. Contudo, o município não atendeu ao pedido.

Problemas na escolas



Helena conta que o tema é novo e que ainda carece de estudos mais aprofundados. Os autistas apresentam muitas vezes um atraso na aquisição e desenvolvimento da linguagem - inclusive cerca de 20% dos autistas apresentam regressão da fala ao longo da vida. Fato que dificulta sua inserção na educação formal.

A falta de capacitação dos professores para lidar com esse alunos é um ponto revelante. Rosilene Andrade Cardoso Baldessar, que foi professora de séries iniciais por três anos e participou do debate durante a palestra, corrobora com essa falta de preparo. “No magistério não se ensina a lidar com essas situações. A escola é o primeiro meio de socialização e as elas não estão preparadas. Muita vezes as famílias tentam forçar um convívio na escola em detrimento à felicidade da criança. Acho que não se deve forçar só para fazer caber no socialmente aceito”, completa. Rosilene é aluna do curso de Formação Inicial e Continuada em Iniciação ao Turismo e Elaboração de Roteiros.

Maristela conta que o filho disse “mãe, eu quero muito aprender a ler, mas eu não consigo. Eu to sendo excluído, pois eu não consigo fazer as coisas como os outros, então ela (professora) me colocou num canto separado”. Isso fez com que Maristela deixasse de levar o filho para a escola por uns dias, e ela conta que recebeu a visita de assistentes sociais para verificar essas faltas. Para o filho, essas profissionais disseram, segundo ela, que se ele não voltasse às aulas sua mãe seria presa.

“Nós temos que nos adaptar. Essas pessoas estão no dia a dia e temos que lidar com elas e suas especificidades. Tem que deixar de olhar com estranheza e procurar atender suas necessidades”, reforça Karla, psicóloga do câmpus.

Causas

A palestrante conta que as causas do autismo são epigenéticas - uma interação entre a genética e o ambiente. Alguns fatores estão ligados ao seu desenvolvimento como já ter um irmão autista - aumenta em 10% - se o pai é mais velho, com idade mais avançada. Outras causas estão sendo estudadas para confirmar, ou não, a sua relação como uso de pesticidas em plantações e a poluição de grandes cidades.

Cuidados parentais e o uso da vacina tríplice viral foram descartados como causa. Helena conta que experiências no controle da alimentação têm sido benéficas para os autistas. “Uma dieta regrada com restrição de glúten, lactose, açúcares e corantes tende a causar uma diminuição dos sintomas autísticos”, finaliza.

 

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